
Apesar de ser a quinta produção da franquia, Uma Noite de Crime: A Fronteira consegue trazer um fôlego renovado a uma ideia que, para muitos, já parecia esgotada. A proposta da série de filmes sempre foi provocadora: durante 12 horas por ano, todo e qualquer crime, inclusive assassinato, é legalizado nos Estados Unidos, sob a justificativa de reduzir a criminalidade e esvaziar as prisões. Mas desta vez, o longa vai além e questiona o que aconteceria se esse limite temporal fosse simplesmente ignorado.
O novo capítulo da saga imagina um cenário em que parte da população decide continuar com a matança mesmo após o fim do período oficial do “Expurgo”. A trama ganha força justamente ao reconhecer a falha central da franquia: seria realmente plausível acreditar que uma sociedade fortemente armada e marcada por ódios profundos obedeceria a um simples cronômetro?
James DeMonaco, criador da franquia, retorna como roteirista e reforça sua crítica social, agora voltada à atual realidade dos EUA. Quem assume a direção é Everardo Gout, estreante em longas-metragens, mas que entrega um trabalho competente, especialmente nos aspectos técnicos. Embora filmado na Califórnia, o cenário do Texas é bem representado, misturando paisagens áridas com o caos urbano típico das produções da Blumhouse e Universal Pictures, que financiam o projeto.
Com um orçamento modesto de US$ 18 milhões, o filme surpreende pela qualidade da produção. A fotografia é bem trabalhada, a trilha sonora é envolvente, e a ambientação transmite tensão constante. O uso inteligente de diferentes estilos de filmagem confere dinamismo às cenas, remetendo a um “faroeste moderno”, ainda que a violência seja retratada de forma menos gráfica que nos títulos anteriores.
O enredo se passa após os eventos de O Ano da Eleição e acompanha Adela (Ana de la Reguera) e Juan (Tenoch Huerta), que fugiram do México e tentam reconstruir a vida em um rancho no Texas. Desde o início, o filme aponta para uma crítica à xenofobia e ao racismo estrutural nos Estados Unidos, mas infelizmente, não aprofunda essas discussões como poderia. A mensagem política é evidente, mas acaba diluída em meio à ação.
Apesar disso, o elenco principal — formado por atores pouco conhecidos — entrega boas atuações. Ana de la Reguera e Tenoch Huerta, ambos mexicanos, são destaques em um filme hollywoodiano que raramente dá tanto espaço a protagonistas latinos. Os personagens secundários, embora com participações relevantes, muitas vezes carecem de profundidade. Alguns parecem surgir apenas para resolver situações específicas, sem maior desenvolvimento.
Os diálogos, por sua vez, falham em explorar com profundidade os temas centrais da narrativa. Um exemplo é uma conversa entre Dylan (Josh Lucas) e Juan, em que Dylan afirma não ser racista, dizendo que “culturas não se misturam”. A cena tinha potencial para um debate mais robusto sobre o racismo velado, mas o assunto é logo abandonado.
No fim, A Fronteira trata temas como polarização política, racismo e xenofobia como pano de fundo para justificar o caos e a violência que movimentam o enredo. Ainda assim, o filme acerta ao escancarar a falência do ideal do “sonho americano”. A mensagem é clara: os Estados Unidos podem ser sua própria maior ameaça, com um moralismo hipócrita que mina os próprios alicerces da sociedade.
A franquia sempre manteve um olhar crítico, seja sobre a desigualdade econômica, o racismo ou a imigração. Embora este novo episódio tenha limitações no desenvolvimento das ideias, consegue manter a proposta viva e, acima de tudo, relevante. Uma Noite de Crime: A Fronteira é um lembrete de que, em um país dividido, nem mesmo o fim do “Expurgo” representa o fim da violência.